(esquartejado de "Le Mépris", Jean-Luc Godard, 1963)
23 de janeiro de 2008
21 de janeiro de 2008
cinco anos
Cinco anos não são nada.
Mas cinco anos é tudo o que basta,
é tudo o que resta da estrada.
E cinco anos, e a mesma história,
na mesma linha onde já não estás,
no mesmo lugar onde te inventei,
no mesmo banco em que jaz
a memória de onde fiquei...
e te abandonei.
...lá atrás. Nessa lonjura que resta
para não saberes quem sou.
E eu que também não sei quem sou
em cinco anos que passaram por mim.
Mas cinco anos te levaram
e tudo aquilo em que me vias?
Cinco anos não são dias,
cinco anos não são fim!
E se há cinco anos eu fora
o que cinco anos me criou,
cinco anos não bastaria
para te ver mais um dia...
...cinco anos ficaria, aqui,
e tu em mim,
cinco anos os dois,
cinco anos assim...
19 de janeiro de 2008
Olha só quem ali está! Mas tu hoje queres ser invisível, certo? Como não te detectaram, nada melhor que aproveitares a oportunidade para vestires o teu fato da invisibilidade!
Estás a começar a sentir o sangue a palpitar nas carótidas, não estás? Deixaste de prestar atenção ao que estavas a fazer e a tua visão periférica aumentou exponencialmente, certo? Esta merda de jogo dá-te tesão, não? É parvo mas tu gostas!
Excitação controlada? É o momento ideal para começar a actuar! Rápida e descomprometidamente, observa “quem ali está” e tenta perceber a sua localização e a respectiva movimentação. Deves ser capaz de perceber o que faz “quem ali está”. O que detectas? Concentração? Dispersão? Rápido, tens de ser célere no teu diagnóstico! Ah, lembra-te sempre que podes dar nas vistas pelo simples acto de te esconderes. O anonimato exige que te mantenhas tal e qual como estavas até há pouco.
Chegou o momento! Subtilmente, sai da tua posição e dirige-te até ao ponto de fuga. Não olhas para lá, mas sabes que te estás a aproximar de “quem ali está”. Não há problema, desde que os níveis de concentração se mantenham elevados. Este é também o momento de maior exigência das tuas supra-renais! Mas isto dá-te tesão, não dá? Continua em frente, és agora um corpo invisível e estás prestes a atingir o teu objectivo.
Chegaste ao ponto de fuga, sem que tivesse soado o sinal de alarme. Atenção, que ainda não é altura para total descontracção! Estás em área neutra e os contratempos podem acontecer.
Já está! Por breves instantes primaste pela invisibilidade. Não era isso que querias? Óptimo, missão cumprida!
Mas… será que “quem ali está” não te detectou primeiro? Não creio, mas é sempre uma possibilidade.
18 de janeiro de 2008
17 de janeiro de 2008
16 de janeiro de 2008
ente-ante
«impressionante, o peido que eu dou em cada instante»
14 de janeiro de 2008
(a)normal fantasiar
Alguém sabe o que é o "amor platónico"?
...apesar de todas as definições "científicas", não me parece que haja mal em fantasiar o mundo, penso antes que o mal está, precisamente, em o mundo não estar minimamente preparado para as nossas fantasias, e quando falo de mundo, falo nas pessoas. Porque o que é o mundo senão uma gigantesca fantasia?
Existem, ainda, alguns resistentes, como o indivíduo do movimento “Free-Hugs”, que distribui um pouco de carinho por desconhecidos e é visto, por praticamente todas as pessoas, como um autêntico anormal. E ele é realmente um anormal, porque o que é normal é nunca olhar as pessoas, é ignorá-las, ou então recorrer à segurança da frieza e da brutidade, é viver a paredes meias com vizinhos que, ao nos verem de manhã, nos cumprimentam com um belíssimo “desviar da cabeça”, um carinhoso grunhido e um simpático bater da porta da rua. Como é bela a normalidade!
Eu também sou normal.
Mas... contudo, de tempos a tempos, percebo que não sou feliz assim. De vez em quando apercebo-me de que sou “um normal” com um profundo desejo de anormalidade a querer saltar cá para fora, sentindo-me impelido, tal como alguém com trissomia 21, a desejar abraçar todas as pessoas e a apaixonar-me por completos desconhecidos. O meu lado “normal” conhece perfeitamente os meandros da amizade e do amor físico e mental, mas o meu lado anormal há muito que compreendeu que isso pode ser extrapolado para todo o mundo, para tal basta haver disponibilidade, abertura de espírito, entrega, altruísmo e uma completa temeridade perante algo que nos poderá magoar de forma irreversível. Um sentido apurado de detecção de feromonas e um profundo desejo interno daquilo que a dopamina provoca no cérebro...
Terei construído um raciocínio científico nas últimas linhas? Talvez... mas cuidado, porque existe uma tendência incutida pelo Sistema em confundir ciência com cepticismo... por isso, caros “cientistas cépticos”, vocês que há muito tempo se deixaram de deslumbrar pelo mundo, vocês que estão formatados pelo nosso fantástico sistema (de “ensino”), vocês que acreditam vir a concretizar-se pela subida na “carreira” e pelo aumento do ordenado, vocês que assassinam o mundo natural com os vossos químicos e o metafísico pela falta de fé, lembrem-se que a ciência nunca bastará para compreender a estrutura do universo (que, para além de matemática, é também semãntica) e, acima de tudo, não se deixem levar pela “normalidade”, porque o ser humano é tudo menos normal.
Um brinde aos anormais, aos artistas, aos músicos, aos poetas e, porque não..., aos Arquitectos “inconscientes”?
Vivemos toda a vida com medo de agir, arrastando processos simples em coisas que se tornam dolorosas, por vezes temos a confirmação de que "ninguém sabe o que dizer”. Ninguém se sente seguro perante o desconhecido, mas há sempre alguns que partem, em viagem, vão, em deslocamento físico através do espaço, ou mesmo parados, a sua mente dispara e, mesmo com medo profundo, eles vão...
Depois, há os que ficam.
...Talvez seja essa a única cura para a efemeridade, tentar encontrar um qualquer (as)significado(?) e agir, abusivamente. Onde estão os cientistas não-cépticos?
"Enganei-me; amanhã é outro dia."
*
«Ninguém é insubstituível, até quem nos abraça.»
13 de janeiro de 2008
estavas enganada, mãe
“Adeus. Vou partir” – e vomito-o pela consideração que não tenho em decidir nunca mais te ver, porque é de ti que vou fugir...e de todos os outros.
Pessoas.
Um eremita; partir para onde a minha língua seja estrangeira, porque sempre fui estrangeiro numa terra onde a língua era apenas um obstáculo de semânticas falaciosas... não vos compreendo e não quero... ninguém quer.
“Amo-te”; “gosto de ti”; “preocupo-me contigo”; “quero (...)”: sempre eu, sempre tu, sempre palavras falsas, momentos sentidos, vidas absurdas, projectos constantemente adiados. “Ama-me agora porque amanhã vou partir” – sempre o momento esporádico, sempre o presente solitário. As pessoas passam, e nós permanecemos aqui. Quem é importante agora, amanhã será outro, e o presente continua, ensurdecedor, silenciosamente repetitivo, desesperadamente só.
Um pequeno gesto, uma palavra não medida, um acidente... tudo o que basta é uma pequena discrepância no movimento caótico de partículas, e tudo muda: poderemos perder tudo aquilo que dávamos por adquirido, um mundo que cai por terra, deixando-nos sem nada.
Como é frágil a felicidade, como são finos e singulares os momentos de alegria, como é avassalador o sentimento daquilo que se dá por adquirido, a derrocada do mundo interior, a evidência da vida ser uma instância assustadoramente passageira e... extremamente curta.
Uma criança de quatro anos prepara-se para se deitar enquanto se depara com a sua futura imagem de noventa anos, no leito de morte, exactamente o mesmo leito em que se prepara para dormir, aquele mesmo lugar.
Como lhe é clara a noção de que os restantes oitenta-e-seis anos de vida passarão a correr!...e chora, porque não quer morrer. A mãe passa-lhe a mão pela cabeça, dizendo-lhe que “ainda falta muito tempo, tu ainda só tens quatro aninhos...”.
Oitenta-e-seis anos mais tarde ele está sozinho, todos os que amou partiram – “estavas enganada, mãe”.